23/12/2025

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ENEL no Santo Ofício paulistano

Concretamente, a ENEL falhou em sua concessão em São Paulo. Mas está sendo publicamente malhada pelos governos e ente regularizador, além da imprensa, de um modo espantoso que desperta muitas outras reflexões.

A ENEL (Ente Nazionale per Energia Electrica), fundada em 1962, nasceu estatal, mas abriu o capital em 1999 e foi convertida em empresa de economia mista, sendo cerca de 76,4% vendida a investidores institucionais e a terceiros pulverizados.

Esta empresa, que assumiu a antiga Eletropaulo em 2018, é bastante renomada na Itália e em outros países. A renda onde atua no exterior é mais alta em comunidades mais escolarizadas, as suas metrópoles são menores do que a paulicéia, as estações do ano são bem definidas, sendo o inverno rigoroso e nevado. Enfrenta na península terremotos e ventos mais agressivos do que os paulistanos.

Vamos explicar o adjetivo espantoso.

Em décadas, nunca houve campanhas tão potentes pela cassação da concessão da Light Rio de Janeiro, que atua em regiões onde se rouba até 40% da energia elétrica fornecida, em áreas que acusam “estados fora do Estado, locais dominados pelo crime organizado”, sendo a consequência absurda a de que os pagadores respondem pelo rateio de indenização da energia roubada.

Idem na Manaus energia.

Em décadas sucessivas na cidade de São Paulo, nunca se exigiu do departamento de parques e jardins que cumprisse suas obrigações legais, resultando no descalabro atual a cada chuva ou vento mais intenso que impactam o município. Não se plantam árvores da melhor forma, as de melhores espécies segundo distintos endereços e finalidades, também não se podam e não se consideram sua historicidade (mormente a futura).

Jamais as prefeituras de São Paulo contiveram a tremenda ocupação ilegal das margens dos mananciais aquíferos, sendo os piores casos os da Billings e Guarapiranga. Hoje, praticamente cercadas por habitações sem quaisquer critérios de urbanização. Trechos viraram esgotos.

No momento, a fúria contra a Enel clama pelo enterramento das fiações por toda a cidade. Ora, o poder aquisitivo do consumidor sempre limitou essa opção. Há cálculos de que o ato do enterro é mais barato do que, durante anos, será o custo de desastres tributários, econômicos, sanitários e urbanos como os havidos nos dias recentes. Como comparar poder aquisitivo com dinheiro público desperdiçado em obras mal feitas, superfaturadas, vagarosas e assim por diante?

Enterrar tampouco é um nirvana. A questão é multidisciplinar porquanto deve considerar as enchentes pluviais prováveis nas mudanças climáticas. As inundações que ocorrem em todos os pontos habitados do mundo se infiltrariam no subsolo e estaríamos transferindo problemas de contingenciamentos para debaixo da terra. Pasmem, mas certamente a SABESP em São Paulo parando o bombeamento teria conseguido salvar alguma água para a carência dramática de seus reservatórios.

A questão  abrange ética, governança, papel e responsabilidade social de cada cidadão e de cada empresa. Há países que cortam as mãos de larápios; outros os colocam no corredor da morte, mas o espanto aqui atinge também o arcabouço legal que não dá conta de intimidar o malfeito. O Estado à mercê de nepotismo, de patrimonialismo, de paroquialismo, de ação entre amigos, tampouco fez questão de realizar com eficiência e eficácia o que lhes cabe.

 

Pedro Paulo de Rezende Porto Filho e Paulo Ludmer

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