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A imprevisibilidade no mundo da energia só faz aumentar diante da tensão crescente entre os poderes globais. O universo do petróleo aumentou suas incertezas, repercutindo sobre conceitos de clima e de todos os demais insumos energéticos, mormente nos renováveis que se encontravam em expansão em 2025, como a energia eólica e a solar fotovoltaica.
As jazidas venezuelanas do Vale do Orenoco têm uma viscosidade péssima, às vezes parecem minerais sólidos. O desafio da presença de enxofre ainda precisa ser aquilatada, bem como a do gás carbônico no processo de extração (o metano é um inimigo da transição energética e da contenção das severidades climáticas).
Essas questões físico-químicas, de engenharia, processuais e tecnológicas, não são pequenas, mas por si só já são multidisciplinares, impactantes sobre custos, economicidade, competitividade. Não se pode ignorar o estado de depreciação dos equipamentos, da logística e afins para o adequado escoamento dos crus venezuelanos rumo aos mercados.
A Petrobrás certamente terá de ficar de olho em um ajuste sensível de seus investimentos na margem Equatorial, onde políticos do Norte apostam a futura redenção do país e da região. Hoje, o barril dos crus (de 159 litros) vale entre US$ 50 e US$ 60. Se despencar, inviabiliza o projeto.
As análises de outras variáveis aumentam a complexidade para efetuar prognósticos seguros, confiáveis. A estabilidade social, a segurança jurídica, o comportamento do câmbio (do dólar norte americano no continente e no mundo), a evolução do custo do dinheiro, os contornos das importantes políticas tributárias, o destino dos acordos multilaterais entre países, os acordos globais em torno de regramentos para o meio ambiente, etc., mas não por fim, nem por último, espera-se a implementação da desejável paz mediante a reconquista dos valores consolidados pela Organização das Nações Unidas, depois da Segunda Guerra Mundial.
Um suposto aumento da produção de petróleo venezuelano, boicotado para Cuba e China, apenas remaneja (com elevação nos custos) fornecedores e compradores. Pois o que determina o tamanho da produção, em última instância, é o consumo que não dará saltos repentinamente, embora passe a perna no entusiasmo do emprego de ventos e luz solar aqui ou acolá. Certamente no Brasil.
Na Ásia, o que acontecerá com o Irã e seu regime de governo ameaçado? Historicamente, quando o Irã reduz sua oferta por problemas políticos internos, rapidamente a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) cobre a quota de oferta perdida. A Arábia Saudita é versátil neste cenário.
No curto prazo, há diversas instabilidades geopolíticas militares: na Ucrânia, Cáucaso e Cárpatos com a Rússia; nos mares do sul da China, que quer recuperar Taiwan; no Irã, Síria, Líbano, Gaza e no Iêmen, envolvendo Israel e Estados Unidos; no Ártico, os EUA insistem na anexação da Groenlândia, ferindo a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN); recentemente, os Estados Unidos bombardearam uma província da Nigéria, ameaçam a Colômbia e o México, além do próprio Canadá. Tudo isso parecia ficção, mas tornou-se realidade discursiva na virada de 2025 para 2026.
A retirada dos EUA de dezenas de organismos e seus grupos de trabalho na ONU esfacelam atividades coletivas de qualidade no planeta e detonam perspectivas diversas, principalmente as direcionadas para o meio ambiente. Ressuscitam o petróleo e predam as fontes de energia renováveis, as de baixo carbono, especialmente os projetos de produção de hidrogênio verde, cuja face já se fazia de conhecimento universal.
O que esperar de 2026? Uma maior fragmentação nas cadeias produtivas, países tentarão verticalizar sua segurança energética e militar. Os custos serão mais altos e a emissão de gases de efeito estufa também. O Brasil rico em diversidade de fontes poderá, se bem gerido e preservada sua soberania, registrar vantagens relativas vis a vis países desprovidos das mesmas possibilidades.
Inclusive, o Brasil dispõe de jazidas de minerais estratégicos essenciais e raros para o século da Inteligência Artificial. A Agência Internacional de Energia, sediada em Paris, divulgou que a demanda mundial de lítio deve crescer em cinco vezes até 2040, em duas vezes por níquel e grafite (já fazemos o grafeno por aqui), além de 50% a 60% por cobalto e terras raras, mais 30% por cobre. Cremos que esses números bastante expressivos estão sujeitos à oscilação descrita nesses parágrafos sobre a realidade do mundo, permeável até mesmo ao rompimento da paz.
Pedro Paulo Porto Filho e Paulo Ludmer