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Janeiro chega sempre da mesma forma. As nuvens se acumulam sem alarde, a chuva começa tímida, e por alguns minutos a cidade parece lavada das altas temperaturas do verão. Depois, quase sem aviso, a água passa a decidir sozinha por onde ir. Escorre onde pode, invade o que encontra, ocupa o que nem sempre estava vazio. Quando as ruas inundam, a água não procura apenas a saída. Ela revela o colapso de um modelo de gestão que privilegiou o asfalto em detrimento da permeabilidade do solo e postergou a implementação de Sistemas de Drenagem Sustentável (SuDS), que permitiriam o manejo adequado das águas pluviais, antes que a enxurrada virasse sentença.
Nesse período do ano, o que verdadeiramente interessa à vida cotidiana dos grandes centros urbanos é a capacidade de fazer a água desaparecer sem causar danos. Na prática, a drenagem é tratada como uma infraestrutura sem dono: subterrânea, invisível, sem glamour — até o dia em que a rua vira rio e o invisível sobe à superfície para cobrar, com juros, o que foi adiado. Diferente da água potável, do esgotamento ou do lixo, a drenagem é o componente “invisível” do saneamento: não rende inauguração, não gera capital político imediato e, por ser subterrânea, é tratada como mera infraestrutura acessória até que o transbordamento a torne, tragicamente, evidente.
Dos dados do SINISA 2025, ecoa o silêncio estrutural: 32% dos municípios brasileiros não possuem sistema formal de drenagem e apenas 3% realizam tratamento das águas pluviais. A preocupação desdobra-se sobre a intensidade das chuvas, já que as galerias pluviais e os piscinões atuais já não são capazes de gerenciá-las. O sistema falha sempre do mesmo modo, e agora, agravado pela emergência climática – com aumento de 222,8% em desastres vis a vis a década de 1990.
Muito mais do que investimentos (que não são poucos), o manejo das águas pluviais exige mudar o próprio conceito do serviço e encarar a verdade desconfortável de que o cidadão não é apenas vítima, é parte do arranjo que multiplica a enxurrada ao impermeabilizar seu próprio lote. É por isso que nem mesmo São Paulo, com mais de cinquenta piscinões em operação, consegue apagar os efeitos de chuvas torrenciais. O concreto pode atrasar o desastre; não consegue, sozinho, revogar as leis da física nem reescrever o desenho urbano.
Para os Municípios, a drenagem é o serviço mais ingrato da infraestrutura urbana. Exige investimento contínuo, demanda planejamento de longo prazo, mas só recebe atenção (inclusive do cidadão) quando já entrou em colapso.
O resultado é um setor que vive sob cobrança constante, sem o correspondente espaço para discutir modelo econômico, previsibilidade regulatória e fontes reais de financiamento. Afinal, falar em taxas ou tarifas de manejo de águas pluviais urbanas, subsídios cruzados ou fundos específicos ainda soa como heresia administrativa. Só que a ausência de uma fonte de financiamento estruturada – e, preferencialmente com cooperação federativa – apenas condena o setor (e a população afetada) ao eterno modo de emergência.
Cidades resilientes não são as que prometem deter a força da natureza. São as que entendem o Manejo de Águas Pluviais Urbanas como serviço híbrido: o corpo consubstanciado pelas galerias e a alma por sua gestão ativa, com seus componentes de planejamento, articulação, projetos, operação e gestão. É necessário integrar a drenagem definitivamente à matriz do saneamento básico, garantindo previsibilidade e segurança jurídica aos investimentos. A água não esquece o seu caminho; ela volta e, cada vez com mais força para lembrar as limitações do Direito em criar realidades. Cabe à sociedade, e os Administradores Públicos, aprenderem que o custo da prevenção será sempre menor, a longo prazo, do que o preço da abdicação da decisão.
Em janeiro, quando a água entra nos alertas recorrentes da Defesa Civil, talvez ela não esteja apenas procurando saída. Está lembrando as infelizes decisões do passado de um futuro adiado, já que cidades resilientes são aquelas que decidiram não adiar o inevitável. Como ensina Saint-Exupéry, o essencial é invisível aos olhos – e a drenagem, como o gigante (mas anacrônico) Jaboticabal, só revela sua alma essencial quando a tempestade a chama para salvar a cidade de si mesma.
Yahn Rainer